Os Estados Unidos voltaram a divulgar arquivos ligados a OVNIs e fenômenos anômalos. Só que, no meio dos relatos de objetos não identificados, apareceram documentos com títulos ainda mais estranhos: buracos de minhoca atravessáveis, “stargates”, motores de dobra, antigravidade e invisibilidade.

Parece uma lista de tecnologias de ficção científica.

Os documentos são reais. Foram produzidos para um programa ligado à Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos, a DIA. Mas isso não significa que o governo americano tenha construído um portal, dominado a viagem no tempo ou encontrado tecnologia alienígena.

A parte mais interessante dessa história está justamente na diferença entre estudar uma ideia e provar que ela funciona.

O que foi liberado agora?

Em 18 de setembro de 2026, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos anunciou a sexta leva de arquivos do PURSUE, sistema criado para concentrar documentos governamentais relacionados a fenômenos anômalos não identificados, os chamados UAP.

A nova publicação reúne materiais históricos e arquivos mais recentes. Entre eles reapareceu um conjunto de relatórios técnicos produzido no fim dos anos 2000 e no início da década de 2010 para o Advanced Aerospace Weapon System Applications Program, conhecido pela sigla AAWSAP.

É esse conjunto que chama atenção.

Os títulos incluem assuntos como:

  • propulsão baseada na manipulação do espaço-tempo;
  • motores de dobra e dimensões extras;
  • buracos de minhoca atravessáveis;
  • “stargates”;
  • energia negativa;
  • antigravidade;
  • energia do vácuo quântico;
  • materiais capazes de produzir efeitos de invisibilidade.

A lista parece extraordinária, mas o contexto muda bastante o significado desses documentos.

Por que o governo estudaria coisas tão estranhas?

Um memorando da própria DIA explica que o programa buscava estudar possíveis ameaças aeroespaciais avançadas que poderiam surgir nas décadas seguintes.

A ideia não era apenas investigar um objeto visto no céu. O escopo incluía temas como propulsão, materiais, geração de energia, redução de assinatura e conceitos aeroespaciais muito à frente da tecnologia disponível na época.

Isso ajuda a entender por que alguns relatórios foram tão longe.

Em inteligência e pesquisa de defesa, uma tecnologia não precisa estar perto de funcionar para ser estudada. Uma das perguntas possíveis é justamente: se esse conceito fosse fisicamente possível algum dia, que consequência teria?

O resultado foram relatórios de referência que reuniam teorias, artigos científicos existentes e possíveis caminhos de pesquisa.

Eles não eram anúncios de protótipos secretos.

O documento fala mesmo em “stargates” e viagem no tempo?

Sim.

Um dos relatórios da DIA tem o título “Traversable Wormholes, Stargates, and Negative Energy”.

O texto discute soluções matemáticas da relatividade geral nas quais um buraco de minhoca poderia ligar regiões distantes do espaço-tempo. Também menciona pesquisas teóricas sobre máquinas do tempo, porque determinadas configurações de buracos de minhoca levantam esse tipo de possibilidade dentro das equações.

Mas existe uma diferença enorme entre uma solução matemática e uma máquina construída.

O próprio documento destaca um obstáculo central: buracos de minhoca atravessáveis exigiriam condições extremamente incomuns, incluindo formas de matéria ou energia “exóticas”. Produzir e controlar algo assim em quantidade útil permanece muito além da tecnologia demonstrada.

Portanto, a palavra “stargate” realmente está no relatório.

O portal funcional, não.

E o tal motor de dobra?

Outro documento se chama “Warp Drive, Dark Energy, and the Manipulation of Extra Dimensions”.

A ideia de um motor de dobra parte de uma possibilidade curiosa da relatividade: em vez de fazer uma nave atravessar o espaço localmente acima da velocidade da luz, seria possível imaginar uma geometria em que o próprio espaço se contraísse à frente e se expandisse atrás dela.

Isso evita, no papel, uma violação direta da regra de que nada viaja localmente mais rápido que a luz.

O problema aparece na engenharia.

Modelos desse tipo normalmente exigem distribuições de energia extremamente difíceis ou desconhecidas, além de condições que não sabemos produzir ou controlar.

O relatório analisava esse território teórico. Ele não mostra um motor sendo testado e não apresenta evidência de que os Estados Unidos tenham dominado esse tipo de propulsão.

Invisibilidade é tão impossível quanto parece?

Aqui a história é um pouco diferente.

O relatório “Invisibility Cloaking: Theory and Experiments” tratava de uma área que possui experimentos reais: os metamateriais.

Esses materiais podem ser estruturados para manipular ondas eletromagnéticas de maneiras incomuns. Em condições específicas e para determinados comprimentos de onda, pesquisadores já demonstraram efeitos que lembram um tipo limitado de “camuflagem”.

Isso está muito longe de uma capa que torna uma pessoa invisível em qualquer direção e sob qualquer luz.

É um bom exemplo de como um título impressionante pode esconder uma área de pesquisa legítima, mas muito mais limitada do que a versão popular da ideia.

E antigravidade?

O relatório “Antigravity for Aerospace Applications” revisava diferentes maneiras teóricas de tentar modificar ou produzir efeitos que pudessem se opor à gravidade.

Novamente, o texto é uma análise de possibilidades.

A física moderna descreve a gravidade com enorme precisão em muitos contextos, mas não existe hoje uma tecnologia operacional capaz de simplesmente desligar a gravidade de um objeto ou produzir uma nave antigravitacional como nas histórias de ficção científica.

Ter um documento oficial discutindo o assunto prova que o tema foi estudado.

Não prova que o problema foi resolvido.

Então esses arquivos têm relação com aliens?

A divulgação faz parte de uma coleção sobre UAP, e o próprio programa AAWSAP aparece na história moderna das investigações americanas sobre o tema.

Isso explica por que esses relatórios estão sendo publicados junto de documentos relacionados a OVNIs.

Mas a presença deles na coleção não transforma as hipóteses descritas em tecnologia extraterrestre.

Em seu relatório histórico de 2024, o All-domain Anomaly Resolution Office, o AARO, afirmou não ter encontrado evidência de que investigações oficiais dos Estados Unidos tenham confirmado tecnologia de origem extraterrestre. O órgão também disse não ter encontrado evidência empírica de programas americanos de engenharia reversa de tecnologia alienígena.

A nova leva de documentos não muda essa conclusão por si só.

Ela mostra que o governo financiou estudos sobre possibilidades tecnológicas extremamente especulativas.

São duas afirmações muito diferentes.

Por que esses documentos são interessantes mesmo assim?

Porque eles mostram onde termina a tecnologia disponível e começa a fronteira mais especulativa da física.

Alguns conceitos analisados nos relatórios nascem de teorias científicas reais. A relatividade permite estudar matematicamente geometrias incomuns do espaço-tempo. Metamateriais realmente conseguem manipular ondas. O vácuo quântico não é simplesmente um “nada” vazio.

O salto difícil vem depois.

Uma equação permitir determinado cenário não significa que a natureza ofereça os materiais, a energia ou as condições necessárias para construí-lo.

É por isso que documentos sobre motores de dobra, buracos de minhoca e invisibilidade podem existir dentro de uma agência de inteligência sem que exista uma nave escondida usando essas tecnologias.

O que os arquivos provam é mais simples e, de certa forma, mais interessante: em algum momento, pesquisadores pagos pelo governo americano foram encarregados de perguntar até onde a física conhecida poderia ser empurrada.

Décadas depois, os relatórios continuam parecendo ficção científica.

A diferença é que agora podemos lê-los.

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