Sob o gelo da Groenlândia, um novo mapa reúne 1.943 vales, incluindo caminhos antes desconhecidos e trechos que apareciam desconectados. O relevo foi reconstruído a partir de pistas que o terreno enterrado deixa no movimento e na superfície do gelo, não por uma câmera capaz de fotografar através dele.

O mapa ganhou destaque na NASA Earth Observatory em 28 de setembro. O estudo de Allison Chartrand e colaboradores foi publicado em 30 de junho de 2026 na revista Geophysical Research Letters. Além de localizar vales, o trabalho ajuda a investigar por onde o gelo escoa e como essa paisagem pode ter se formado.

Quantos desses vales são realmente novos?

Cerca de 34% não apareciam no BedMachine Greenland, o modelo de relevo usado na comparação. Portanto, quase 2 mil é o total catalogado, não o número de descobertas inteiramente novas. Os pesquisadores selecionaram manualmente vales com pelo menos 10 quilômetros de comprimento e 1 quilômetro de largura, segundo o artigo científico.

Outros caminhos já eram conhecidos, mas o novo levantamento mostra que avançam mais para o interior da ilha. Alguns se prolongam por centenas de quilômetros além do que o modelo anterior indicava, de acordo com a NASA.

Pense em um mapa de estradas que mostra apenas trechos separados. Descobrir uma estrada nova e perceber que dois trechos fazem parte do mesmo caminho são avanços diferentes. Os dois melhoram o mapa, mas só o primeiro aumenta a contagem de trajetos antes desconhecidos. Essa distinção ajuda a entender o resultado sem diminuir sua importância nem inflar a descoberta.

Como enxergar o terreno debaixo de quilômetros de gelo?

O manto de gelo da Groenlândia ocupa cerca de 1,7 milhão de quilômetros quadrados e ultrapassa 3 quilômetros de espessura em seu ponto mais espesso, segundo o National Snow and Ice Data Center. Não se trata, porém, de uma cobertura imóvel: o gelo se espalha sob o próprio peso.

Ao passar sobre elevações e depressões, esse fluxo pode carregar sinais do terreno até a superfície. Pequenas ondulações observadas de cima servem, assim, como pistas de estruturas maiores escondidas embaixo. A explicação da NASA descreve esse princípio, chamado análise de perturbações do fluxo de gelo, ou IFPA na sigla em inglês.

O raciocínio parte do efeito para investigar a causa: observa-se o comportamento do gelo e calcula-se que relevo poderia ajudar a produzi-lo. Isso é diferente de simplesmente retirar uma camada branca de uma fotografia. Entre a observação e o mapa existe um modelo físico.

Como ler o mapa sem confundir relevo com fotografia

A imagem de abertura reúne o mapa científico completo e uma ampliação do trecho marcado. As áreas verdes não são uma floresta descoberta pelo derretimento. A imagem representa o relevo sob o gelo, não uma vista do solo recém-exposto. O mapa completo também pode ser aberto separadamente.

Para interpretar o que ele mostra, vale separar três perguntas.

O que foi medido? São as observações usadas como ponto de partida. Na explicação do método, os sinais na superfície do gelo fornecem pistas sobre o que está abaixo. Não são imagens ópticas de cada vale enterrado.

O que foi reconstruído? É a estimativa do terreno que resulta da combinação dos dados com o modelo. Um desenho muito detalhado não significa que cada profundidade esteja conhecida com a mesma precisão.

O que foi interpretado? São as explicações propostas para a origem da paisagem. Identificar o trajeto de um vale não determina, por si só, quando ele se formou ou qual processo o escavou.

Essa separação também é útil ao olhar outras visualizações científicas. No caso dos sons do espaço, por exemplo, uma sonificação representa dados sem ser uma gravação com microfone. Aqui, a imagem representa um terreno reconstruído sem ser uma fotografia dele.

O que ainda não dá para concluir

Os autores têm mais confiança na localização dos vales do que no valor exato de seu relevo. Uma das limitações é a estimativa de quanto o gelo desliza sobre a base: mudar essa condição afeta a amplitude do relevo reconstruído. Essa ressalva aparece na discussão metodológica do estudo.

Em outras palavras, “o vale passa por aqui” e “o vale tem exatamente esta profundidade” não são afirmações equivalentes. O mapa pode melhorar bastante a primeira resposta sem resolver completamente a segunda.

A NASA destaca que certos alinhamentos sugerem influência tectônica e que as ramificações oferecem pistas sobre a participação de água subterrânea na formação dos vales. São interpretações geológicas, não uma história já comprovada para cada caminho.

Conhecer esses caminhos também ajuda a estudar o movimento do gelo. Mas um mapa do terreno não é, sozinho, uma previsão de quando o manto vai desaparecer. O avanço é tornar a paisagem escondida mais bem definida, para que as próximas perguntas partam de um mapa melhor.

Referências3 fontes e créditos da imagem