Uma supernova explode uma vez. Mesmo assim, o Telescópio Espacial Hubble está apontado para uma região do céu onde os astrônomos esperam ver a mesma explosão aparecer novamente.
Não é uma segunda explosão. É a luz do mesmo evento chegando à Terra por outro caminho.
A observação faz parte de um momento simbólico para o telescópio. Em 19 de setembro de 2026, o Hubble completou sua 200.000ª órbita ao redor da Terra. No mesmo dia, ele observou o aglomerado de galáxias MACS J0417 em busca de sinais da supernova Athena.
O motivo mistura uma das previsões mais interessantes da relatividade com um problema que ainda intriga a cosmologia: medir com precisão a velocidade de expansão do universo.
O que aconteceu na órbita número 200 mil?
O Hubble está em operação há mais de 36 anos. Segundo a NASA, nesse período ele percorreu mais de 5 bilhões de milhas ao redor da Terra e acumulou mais de 1,7 milhão de observações.
A órbita de número 200 mil foi completada em 19 de setembro de 2026. Entre as observações daquele dia estava o aglomerado MACS J0417, uma concentração gigantesca de galáxias cuja massa é grande o suficiente para alterar o caminho da luz que passa por ela.
Atrás desse aglomerado ocorreu a supernova Athena.
Ela foi descoberta pelo Telescópio Espacial James Webb em 2025, mas os astrônomos esperam que uma nova imagem do mesmo evento se torne visível entre agora e o início de março de 2027.
É aí que a história fica estranha: como algo que já aconteceu pode voltar a aparecer?
Como a mesma supernova pode aparecer de novo?
A explicação está em um fenômeno chamado lente gravitacional.
Objetos muito massivos, como grandes aglomerados de galáxias, deformam o espaço-tempo ao redor deles. A luz de uma galáxia ou estrela muito mais distante pode ter sua trajetória desviada ao atravessar essa região.
O efeito pode ampliar, distorcer e até multiplicar a imagem de um objeto que está ao fundo.
No caso de uma supernova, existe ainda outro detalhe: os diferentes caminhos percorridos pela luz não precisam ter o mesmo comprimento nem atravessar regiões com a mesma curvatura gravitacional.
Isso significa que a luz liberada em uma única explosão pode chegar até nós em momentos diferentes.
Uma parte chega primeiro. Outra pode aparecer meses ou anos depois.
Portanto, quando a NASA diz que Athena pode “reaparecer”, a estrela não estará explodindo de novo. Estaremos recebendo outra parcela da luz da mesma explosão, atrasada pelo caminho que percorreu até a Terra.
O que o aglomerado MACS J0417 tem a ver com isso?
MACS J0417 funciona como uma espécie de lente cósmica.
A comparação com uma lente comum ajuda a visualizar o efeito, mas não é exatamente a mesma coisa. Uma lente de vidro desvia a luz por refração. Um aglomerado de galáxias faz isso porque sua enorme massa curva o espaço-tempo.
Ao observar como as imagens de objetos distantes são distorcidas e multiplicadas, os astrônomos conseguem reconstruir parte da distribuição de massa do aglomerado.
Isso inclui matéria que não emite luz diretamente, como a matéria escura.
O atraso entre diferentes imagens da mesma supernova acrescenta outra informação importante. Se os pesquisadores sabem que estão vendo o mesmo evento por caminhos diferentes, o intervalo entre as aparições funciona como uma espécie de relógio cósmico.
É esse relógio que torna Athena especialmente interessante.
Isso já aconteceu com outra supernova
Athena não é o primeiro caso em que astrônomos usam uma supernova ampliada por lente gravitacional dessa forma.
Em 2014, o Hubble observou a supernova Refsdal aparecendo em várias posições por causa de uma lente gravitacional. A partir do mapa de massa do aglomerado responsável pelo efeito, pesquisadores previram onde uma nova imagem da supernova deveria surgir.
Ela apareceu novamente em 2015, na região prevista.
Esse tipo de observação é importante porque transforma um fenômeno visualmente estranho em um teste para os modelos usados pelos astrônomos.
Se o modelo descreve corretamente como a massa está distribuída e como a luz percorre o sistema, ele também deve conseguir reproduzir os atrasos observados entre as diferentes imagens.
Por que medir o momento em que Athena reaparece?
O tempo de atraso pode ajudar os pesquisadores em pelo menos dois problemas.
O primeiro é mapear com mais precisão a massa de MACS J0417. Como a lente gravitacional depende de como essa massa está distribuída, o momento e a posição das imagens fornecem pistas sobre a estrutura do aglomerado.
O segundo é cosmológico.
As distâncias envolvidas e os atrasos causados pela lente podem ser usados em métodos independentes para estudar a taxa de expansão do universo, conhecida como constante de Hubble.
Essa taxa continua sendo um dos pontos mais discutidos da cosmologia moderna. Diferentes métodos de medição produzem valores próximos, mas não perfeitamente compatíveis. Essa diferença é conhecida como tensão de Hubble.
Athena, sozinha, não deve resolver essa questão. Mas sistemas de lente gravitacional com atrasos bem medidos acrescentam dados independentes a um problema no qual pequenas diferenças importam muito.
Por que usar o Hubble se o James Webb já existe?
Foi o James Webb que descobriu Athena, mas isso não torna o Hubble dispensável.
Os telescópios observam o universo de formas complementares.
O Hubble é especialmente importante em comprimentos de onda visíveis e ultravioletas. O Webb trabalha principalmente no infravermelho. Combinar essas observações permite estudar os mesmos objetos com informações diferentes.
Há também uma vantagem que não aparece em especificações de câmera: tempo de observação acumulado.
O Hubble consegue voltar às mesmas regiões do céu depois de meses ou anos e comparar o que mudou. Para procurar a reaparição de uma supernova, essa capacidade de monitoramento é justamente o que interessa.
Mesmo depois de mais de três décadas em órbita, a procura por tempo no Hubble continua alta. Segundo a NASA, os astrônomos pedem cerca de sete vezes mais tempo de observação do que o telescópio consegue oferecer.
O que os astrônomos esperam ver agora?
A janela prevista para a nova aparição de Athena vai até o início de março de 2027.
Até lá, o Hubble pode continuar retornando à região de MACS J0417 para verificar se o ponto de luz esperado surgiu.
Se essa imagem for detectada, o dado mais importante não será apenas uma nova fotografia.
Será quando a imagem apareceu.
Esse horário cósmico ajuda a testar o mapa de massa do aglomerado e pode contribuir para medições da expansão do universo.
É uma situação em que olhar para o céu parece mostrar o passado duas vezes. Na realidade, o passado aconteceu uma vez só.
A luz é que encontrou mais de um caminho para chegar até nós.
Referências5 fontes e créditos da imagem
Fontes consultadas para checagem, contexto e aprofundamento.
- NASA | Hubble busca supernova ampliada e marca 200 mil órbitas
- NASA | Imagem do aglomerado MACS J0417 observada no marco de 200 mil órbitas
- NASA | Como lentes gravitacionais permitem ver o mesmo objeto mais de uma vez
- NASA | Constante de Hubble e a tensão sobre a taxa de expansão do universo
- NASA | Colaboração internacional refina medidas da expansão do universo em 2026
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