O telescópio Roman é um observatório espacial da NASA projetado para mapear grandes áreas do céu em infravermelho. Seu trabalho será procurar planetas fora do Sistema Solar e investigar dois problemas que continuam sem solução: a natureza da matéria escura e o que está por trás da expansão acelerada do universo.

Ele não foi feito para substituir o James Webb. O Roman vai mapear áreas extensas, enquanto o Webb pode examinar alvos desse levantamento em mais detalhe.

O observatório foi lançado em 30 de agosto de 2026, a bordo de um Falcon Heavy. Mas sair da Terra é só uma etapa. Antes das observações científicas, seus instrumentos precisam esfriar, passar por testes e ser calibrados.

O Roman já está funcionando?

Antes de iniciar as observações científicas, o Roman passa pela fase de comissionamento, o período de preparação do observatório no espaço.

Na atualização publicada em 15 de setembro, a NASA anunciou a ativação de sua câmera principal e mostrou uma primeira imagem de teste. As estrelas aparecem desfocadas, parecidas com pequenos anéis, porque o conjunto de detectores ainda estava na posição de lançamento, longe do foco ideal. Não era um sinal inesperado de defeito.

Essa imagem serve como referência para ajustar a óptica. Ela não deve ser confundida com a estreia das imagens científicas, que a agência prevê divulgar até o início de 2027. A previsão depende da conclusão dos testes: câmera ligada e observatório pronto para fazer ciência não são a mesma coisa.

Como ele consegue enxergar uma área tão grande?

A principal ferramenta é o Wide Field Instrument, ou WFI, uma câmera de infravermelho formada por 18 detectores. Ela registra luz em comprimentos de onda que nossos olhos não enxergam.

Segundo a descrição técnica da NASA, cada imagem cobre uma área do céu maior que a área aparente da Lua cheia. O campo é quase 100 vezes maior que o das exposições mais amplas do Hubble, feitas com a Advanced Camera for Surveys.

Aqui vale cuidado com a comparação. Isso não significa uma imagem 100 vezes mais nítida, nem um telescópio que dá 100 vezes mais zoom. O número descreve a área observada de uma vez.

Essa visão ampla ajuda a comparar muitas galáxias e encontrar objetos raros sem precisar escolher cada alvo antecipadamente. Observar novamente uma região também permite perceber o que mudou: uma estrela que explodiu, por exemplo, ou uma alteração passageira de brilho.

Qual é a diferença entre o Roman e o James Webb?

O Roman tem um espelho principal de 2,4 metros. O do Webb mede 6,5 metros e coleta mais luz, uma vantagem para estudar objetos muito fracos. O Webb também alcança faixas mais longas do infravermelho.

Por outro lado, o Roman cobre áreas maiores em cada observação. Por isso, a NASA descreve os dois como parceiros: um levantamento do Roman pode encontrar um objeto interessante para o Webb examinar depois. O Roman também pode mostrar o ambiente ao redor de um alvo já observado pelo Webb.

Para uma comparação direta das capacidades, veja Roman x James Webb: por que a NASA precisa dos dois?. Para entender a outra metade dessa parceria, veja como o James Webb consegue observar o passado do universo.

O que ele vai procurar na energia escura?

O universo está se expandindo, e essa expansão está acelerando. Energia escura é o nome dado ao componente desconhecido usado para explicar essa aceleração no modelo cosmológico mais aceito. O nome não resolve o mistério: sua natureza continua em investigação.

O Roman vai ajudar a reconstruir como a expansão mudou ao longo do tempo. Uma das ferramentas são determinadas explosões estelares, as supernovas do tipo Ia. Com as devidas correções, elas permitem estimar distâncias e comparar diferentes épocas cósmicas.

A missão também vai analisar a distribuição de galáxias. Ao combinar medidas independentes, os pesquisadores poderão testar se a energia escura se comporta como uma constante ou se os dados exigem outra explicação. Esses são objetivos do programa de energia escura do Roman, não descobertas já realizadas.

A história dessa expansão também ajuda a entender outra pergunta: por que o espaço é escuro mesmo com tantas estrelas?

Matéria escura é a mesma coisa?

Não. Matéria escura e energia escura recebem nomes parecidos, mas representam problemas diferentes.

A matéria escura é investigada por seus efeitos gravitacionais sobre objetos e sobre a luz. O Roman não vai fotografá-la como fotografa uma galáxia. Ele buscará pistas na pequena deformação das imagens de galáxias distantes, provocada pela gravidade da matéria que existe no caminho.

Esse efeito é chamado de lente gravitacional fraca. As distorções são sutis, então o trabalho exige comparar muitas galáxias e separar o sinal gravitacional de outras características das imagens.

Com essas medidas, a equipe pretende mapear a distribuição de matéria e acompanhar a formação das grandes estruturas cósmicas. A explicação da NASA sobre matéria escura detalha essa estratégia. Encontrar seus efeitos não equivale, por si só, a identificar de que partículas ela é feita.

Como o Roman vai encontrar outros planetas?

Uma de suas técnicas será observar mudanças no brilho de estrelas causadas por microlentes gravitacionais.

O alinhamento funciona assim: uma estrela mais próxima passa, do nosso ponto de vista, diante de outra mais distante. A gravidade da primeira amplia temporariamente a luz da estrela ao fundo. Se houver um planeta no sistema mais próximo, ele pode deixar uma alteração adicional nesse sinal.

Os cientistas analisam essa curva de brilho para inferir a presença do planeta. Não é uma fotografia de sua superfície.

A técnica ajuda a encontrar mundos em órbitas relativamente distantes de suas estrelas. Também permite procurar planetas errantes, que viajam pela galáxia sem estar presos a uma estrela. Isso complementa métodos que encontram com mais facilidade planetas de órbitas curtas, como os trânsitos.

O programa de exoplanetas do Roman combina essas abordagens para ampliar o retrato dos sistemas planetários, inclusive daqueles bem diferentes do nosso.

E o instrumento que bloqueia a luz das estrelas?

Além da câmera principal, o observatório leva um coronógrafo. Ele usa elementos ópticos e espelhos ajustáveis para reduzir o brilho de uma estrela e revelar sinais muito mais fracos ao redor dela.

Pense na dificuldade de perceber um ponto pouco iluminado ao lado de um farol. A comparação não descreve toda a engenharia, mas ajuda a entender o obstáculo: a luz intensa da estrela esconde a do planeta.

No Roman, o coronógrafo é uma demonstração tecnológica voltada a observar diretamente planetas gigantes e discos de material. Ele deve testar recursos úteis para futuras missões. Não foi projetado para entregar uma fotografia de uma segunda Terra com sinais de vida.

A distinção está na própria descrição do instrumento: demonstrar uma técnica promissora não é o mesmo que já ter capacidade para cumprir todos os objetivos da próxima geração de telescópios.

Onde ele vai ficar e por que o nome Roman?

O destino é uma órbita ao redor do ponto de Lagrange L2 do sistema Sol-Terra, a cerca de 1,5 milhão de quilômetros de nós. A região oferece condições favoráveis para manter o observatório frio e apontar seus instrumentos, conforme a página de comissionamento da missão.

Ele não ficará imóvel em um ponto, nem livre da gravidade. Sua trajetória precisa ser controlada. A viagem até a região de operação leva aproximadamente três meses, aproveitados também para preparar os instrumentos.

Já o nome homenageia Nancy Grace Roman, a primeira chefe de astronomia da NASA. Ela teve papel central na defesa da astronomia espacial e no desenvolvimento do programa que tornou o Hubble possível.

A proposta de ampliar o acesso à observação continua na missão: a NASA informa que os dados científicos do Roman serão disponibilizados publicamente, sem um período de uso exclusivo. Isso permitirá que diferentes equipes procurem respostas nos mesmos levantamentos.

É aí que está sua promessa mais interessante. Além de examinar perguntas já conhecidas, um grande mapa pode revelar coisas que ninguém tinha pensado em procurar.

Sobre a imagem de abertura: a fotografia mostra o Roman já encapsulado em sua coifa durante o transporte para o hangar da SpaceX no Centro Espacial Kennedy, pouco antes do lançamento. O registro é da NASA e foi feito por Sydney Rohde (Rocz).

Referências12 fontes e créditos da imagem