Em diagramas escolares, o Sistema Solar costuma terminar em Netuno. Depois dele sobra um pouco de espaço vazio, talvez Plutão apareça em algum canto e pronto. A realidade é bem mais interessante.

Netuno é o planeta mais distante do Sol, mas está longe de ser a última coisa importante por ali. Depois de sua órbita existe uma população enorme de objetos gelados, planetas anões, corpos com órbitas muito inclinadas e regiões tão distantes que uma volta completa ao redor do Sol pode levar milhares de anos.

A pergunta “o que existe depois de Netuno?” também tem outra complicação: não existe uma única linha que marque o fim do Sistema Solar. A resposta muda dependendo do que estamos chamando de fronteira.

Primeiro vem o Cinturão de Kuiper

Netuno orbita o Sol a uma distância média de aproximadamente 30 unidades astronômicas. Uma unidade astronômica, ou UA, é a distância média entre a Terra e o Sol.

A partir dessa região começa o Cinturão de Kuiper, uma área em forma de disco espesso ou rosquinha cheia de corpos gelados que sobraram da formação do Sistema Solar.

Segundo a NASA, a região principal do cinturão se estende aproximadamente de 30 a 50 UA. Astrônomos estimam que existam centenas de milhares de objetos com mais de 100 quilômetros de largura e milhões de corpos menores.

Eles não são pedaços aleatórios sem história. São uma espécie de arquivo congelado das primeiras fases do Sistema Solar.

Plutão vive ali, mas não está sozinho

Plutão é o morador mais famoso do Cinturão de Kuiper, mas não é um caso isolado.

Também existem mundos como Makemake e Haumea, além de muitos objetos menores classificados como objetos do Cinturão de Kuiper ou, de forma mais ampla, objetos transnetunianos.

Eris é outro nome importante. Ele é parecido em escala com Plutão e sua descoberta teve papel central na discussão que levou à definição moderna de planeta adotada pela União Astronômica Internacional em 2006.

O que mudou nossa visão do Sistema Solar foi justamente perceber que Plutão não estava sozinho em uma região vazia. Ele faz parte de uma população.

A gravidade de Netuno organiza boa parte dessa bagunça

Mesmo depois de sua órbita, Netuno continua mandando muito no bairro.

A gravidade do planeta influencia as trajetórias de vários objetos do Cinturão de Kuiper. Alguns ficam presos em ressonâncias orbitais, relações em que seus períodos ao redor do Sol mantêm proporções regulares com o período de Netuno.

Plutão, por exemplo, completa duas órbitas para cada três de Netuno. Essa ressonância ajuda a manter a configuração orbital estável e evita uma aproximação perigosa entre os dois mundos, mesmo que os caminhos desenhados por suas órbitas pareçam se cruzar quando vistos de forma simplificada.

Essas relações funcionam como pistas sobre a migração dos planetas gigantes no início do Sistema Solar.

Depois do cinturão principal vem o disco disperso

A fronteira fica menos organizada depois de aproximadamente 50 UA.

Há uma população chamada disco disperso. Muitos de seus objetos têm órbitas muito alongadas e inclinadas, resultado de interações gravitacionais ocorridas ao longo da história do Sistema Solar.

A NASA descreve essa região como uma extensão que pode chegar perto de 1.000 UA, com alguns corpos indo ainda mais longe em determinados pontos de suas órbitas.

Eris é um exemplo conhecido de objeto associado ao disco disperso.

Nesse ponto já estamos falando de distâncias difíceis de imaginar. A luz do Sol demora pouco mais de oito minutos para chegar à Terra. Para alcançar objetos centenas de vezes mais distantes que nós, precisa viajar por muitas horas ou até dias.

Existem objetos ainda mais estranhos

Alguns corpos têm órbitas que permanecem muito afastadas de Netuno, o que torna mais difícil explicar sua trajetória apenas pela influência atual do planeta.

Eles são chamados de objetos destacados. Sedna é um dos exemplos mais famosos. Seu caminho ao redor do Sol é tão alongado que, no ponto mais distante, vai para regiões muito além do Cinturão de Kuiper principal.

Esses objetos interessam porque podem guardar sinais de eventos antigos: encontros com outras estrelas quando o Sol ainda fazia parte de seu aglomerado natal, mudanças gravitacionais na juventude do Sistema Solar ou a influência de algo grande e ainda não descoberto.

É aqui que entra a ideia popular do chamado Planeta Nove.

Existe mesmo um nono planeta escondido?

Talvez. Mas ele ainda é uma hipótese.

Alguns astrônomos propuseram que padrões nas órbitas de objetos muito distantes poderiam ser explicados pela gravidade de um planeta ainda desconhecido, muito além de Netuno. Esse possível mundo ganhou o apelido de Planeta Nove.

Até hoje, porém, ele não foi observado diretamente. Existem discussões sobre a força das evidências e sobre quanto dos padrões pode vir de vieses de observação. Então não é correto falar do Planeta Nove como um objeto confirmado.

Essa é justamente uma das coisas legais dessa região: ainda existem perguntas fundamentais em aberto dentro do nosso próprio Sistema Solar.

E a Nuvem de Oort?

Muito mais longe aparece outra ideia importante, a Nuvem de Oort.

Ela seria uma região aproximadamente esférica com enormes quantidades de corpos gelados, possivelmente se estendendo por milhares ou dezenas de milhares de unidades astronômicas. É considerada uma fonte provável de muitos cometas de longo período.

A diferença é que a Nuvem de Oort ainda não foi fotografada diretamente como uma estrutura. Sua existência é inferida principalmente a partir das órbitas dos cometas e de modelos da formação do Sistema Solar.

Se o Cinturão de Kuiper é o subúrbio distante, a Nuvem de Oort seria algo como a zona rural cósmica da vizinhança solar.

As Voyagers já saíram do Sistema Solar?

Você provavelmente já viu a frase “Voyager saiu do Sistema Solar”. Ela depende da definição usada.

As sondas Voyager 1 e Voyager 2 atravessaram a heliopausa, a região onde o vento solar deixa de dominar o ambiente e começa o espaço interestelar. Nesse sentido, entraram no meio interestelar.

Mas continuam muito dentro da região em que a gravidade do Sol pode controlar objetos. Se considerarmos a Nuvem de Oort como parte do Sistema Solar, elas ainda levariam um tempo enorme para atravessá-la.

Por isso, dizer onde o Sistema Solar “termina” não é tão simples quanto desenhar um círculo.

Só uma nave visitou o Cinturão de Kuiper de perto

A missão New Horizons mudou nossa visão dessa região.

Ela passou por Plutão em 2015 e revelou montanhas de gelo, planícies e uma geologia muito mais ativa e complexa do que muita gente esperava. Em 2019, a sonda visitou Arrokoth, um pequeno objeto do Cinturão de Kuiper, fornecendo uma visão rara de um corpo preservado desde as fases iniciais da formação planetária.

Por enquanto, é a única nave que explorou diretamente objetos do cinturão dessa maneira.

O restante depende de telescópios na Terra e no espaço, levantamentos de céu e muita paciência. Esses objetos são pequenos, frios, escuros e ficam absurdamente longe.

Então, o que existe depois de Netuno?

A melhor resposta é: muito mais Sistema Solar.

Existe o Cinturão de Kuiper, existe o disco disperso, existem objetos destacados, existe a hipótese de planetas ainda desconhecidos e, muito além, provavelmente existe a Nuvem de Oort.

Netuno não é a parede externa do nosso sistema. É mais parecido com uma placa dizendo que a região conhecida pelos grandes planetas terminou e a parte mais remota, antiga e difícil de observar está começando.

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